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O dia em que o sonho virou realidade

Escrito por Sérgio Sette Câmara
Piloto da GP2 Series pela equipe MP Motorsport

Foto: Flávio Quick

Sempre que uma criança começa a competir de kart, com certeza o seu maior sonho é um dia chegar à Fórmula 1. Naquele momento você nem faz ideia de como isso poderá acontecer, mas, pelo menos comigo, o que me motivou a começar nas corridas foi saber como um piloto fazia para chegar na F1.

O distante sonho daquele menino que ficava assistindo às corridas nas manhãs de domingo de concretizou para valer no mês passado. Mas, antes disso, eu tive uma primeira experiência extraoficial.

Desde o fim do ano passado eu estou participando do Red Bull Junior Team e, no mês de maio, eu tive o primeiro contato com um carro de F1. Foi uma apresentação no circuito de Motorland, na Espanha. O carro foi o RB8 com que o Vettel foi o campeão mundial em 2012, porém, com a pintura deste ano.

Apesar de ser apenas um “showrun” foi superbacana. A equipe Red Bull leva uma estrutura incrível para a pista, mais de 10 pessoas apenas para três apresentações, uma por dia. Consegui realizar muito bem o que a equipe me pediu naquela ocasião, dei efetivamente minhas primeiras voltas com um carro de F1 e, até mesmo, dei alguns zerinhos. O pessoal do time me elogiou, gostou do trabalho que desenvolvi e, satisfeito pela chance, voltei para minha temporada na F3 Europeia.

Acontece que, depois da etapa do Red Bull Ring da F3, o Dr. Helmut Markko me chamou para uma reunião no escritório dele e me perguntou se eu achava que estava pronto para guiar um carro de F1 de verdade. Sem entender muito bem o que ele queria dizer, eu disse que achava que sim. Ele me falou que o pessoal da RBR tinha me elogiado bastante e que, se eu quisesse, ele iria tentar uma oportunidade para que eu participasse no teste coletivo de Silverstone, em meados do julho.

Assim, alguns dias depois, surgiu o convite da Scuderia Toro Rosso para realmente fazer o teste na Inglaterra. A Red Bull me deu todo o suporte, fiz várias sessões de simulador antes do treino e, principalmente, me preparei física e mentalmente para a experiência. Afinal de contas, a potência do carro de F1 é quase quatro vezes maior que a do meu F3. Desde o dia em que fui à sede do time, em Faenza, na Itália, eu já tinha notado como era diferente do ambiente da F3.

Eu fiz meu teste no carro do Carlos Sainz, piloto titular do time na temporada, e para a minha sorte, no dia anterior ao meu teste ele pilotou o carro completamente voltado à acertos e desenvolvimento do equipamento para o restante da temporada. Foi muito bom, porque eu pude ver exatamente como tudo acontecia ali de dentro dos boxes. Ele me deu alguns toques e, principalmente, os mecânicos e engenheiros conversaram muito comigo.

A expectativa cada vez aumentava mais e, finalmente, chegou a esperada quarta-feira 13 de julho. Saí cedinho do hotel, tomei café no próprio espaço de alimentação da equipe e às nove da manhã o motor foi ligado. Confesso que me assustei na hora em que eu entrei no box e mais de 30 pessoas estavam em volta do carro. Todos olharam para mim, esperando que eu entrasse e começasse meu trabalho.

A primeira entrada na pista foi uma volta de verificação e, em seguida, começamos efetivamente o dia de treinos. Eu estava um pouco preocupado com o volante, mas o meu engenheiro foi me orientando durante todo o tempo e consegui me sair bem. Estudei bastante as funções também, o que pelo menos me deixou menos ansioso. Na parte da manhã eu fiquei no carro por 3 horas e meia. Eu somente saí do cockpit ao meio dia e meio, para o intervalo do almoço. Entre várias entradas na pista a adrenalina foi baixando e, volta a volta, eu conseguia ser mais rápido e me acostumar com os impressionantes 950 hp’s do carro.

O que mais me chamou a atenção foi a aceleração. Talvez por já ter tido a experiência do showrun, na Espanha, os freios, que também são absurdos, não me assustaram tanto assim. A velocidade do carro, principalmente quando entra a recuperação de energia, é absurda. A velocidade de contorno das curvas e a precisão de cada coisa é muito legal.

Eu realmente estava muito concentrado e, depois de duas entrevistas e almoçar rapidamente, descansei no lounge da equipe por 30 minutos até que, pontualmente às 13:30hs, a porta do box foi aberta para voltarmos aos treinos.

Mais confiante, eu comecei a realmente buscar o meu limite e consegui andar bem rápido. Já não via a hora de colocarmos os pneus supermacios e realmente fazer uma simulação de tomada de tempos, com a aceleração máxima possível. Infelizmente, um pequeno problema na parte eletrônica do motor não permitiu que eu conseguisse fazer esta parte do teste como eu queria. O time conseguiu arrumar o problema e me deu a chance de terminar o teste, mas a minha melhor marca foi mesmo o 1m34s0 que eu tinha feito no meio da tarde.

É difícil encontrar palavras para descrever uma sensação como esta. Deu um frio na barriga, mas foi só abrir o box e colocar a máquina na pista que a adrenalina foi baixando e eu consegui fazer o que estava programado.

Andei mais de 460 km em 82 voltas e fiquei muito feliz porque eu consegui fazer exatamente o que o time me passou. Quando me pediram para acelerar para valer, consegui levar o carro ao limite.

Só tenho a agradecer à oportunidade oferecida pela Red Bull através Dr. Markko, o Franz Tost (chefe da Toro Rosso), a CEMIG, a Petrobras e a todos da equipe que realmente me receberam de uma forma extremamente profissional. Não posso deixar de falar do meu pai, que esteve sempre comigo e neste dia não foi diferente; o Albert meu manager; e meu amigo Flávio Quick, que como sempre estava do meu lado registrando cada detalhe deste dia tão especial. Espero voltar para a minha temporada de F3 com ainda mais gás e vontade de chegar logo a hora de concretizar a minha ida definitiva para a F1.

Abraços e até a próxima coluna!