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Jovens e famintos

Escrito por Wagner Gonzalez
Jornalista especializado em automobilismo de competição

O momento mais emocionante do GP da Bélgica 2017 (F1.Com)


Não é de hoje que dois pilotos de uma mesma equipe agem em conjunto para causar prejuízos de várias espécies às equipes que os contrataram. Os brasileiros conhecem essa novela em várias versões e desde os tempos em que Emerson Fittipaldi dividiu a equipe Lotus com David Walker. Verdade que o australiano, lembrado por todos os pilotos que disputaram freadas com ele, acabou colaborando para a Lotus concentrar atenções no brasileiro e, dessa forma, pavimentou o caminho para o Brasil conquistar seu primeiro título mundial na Fórmula 1.

Tampouco esquecemos das artimanhas que envolveram o relacionamento entre Nelson Piquet e Nigel Mansell nos tempos de ambos na Williams e jamais apagaremos da mente a guerra fria entre Ayrton Senna e Alain Prost. Tudo isso corroborou para formar um discutível estereótipo do piloto latino na F-1, aquele que pisa fundo na emoção e esquece de usar a razão para acalmar a sede de se impor dentro do time.

Emerson foi o mais calmo e frio de todos os citados e é uma verdadeira antítese de três personagens do GP da Bélgica disputado domingo, em Spa-Francorchamps. Trata-se de episódios que falam de juventude e latinidade e, em parte, aumentam tais dimensões, afinal envolvem as culturas da França, Holanda e do México, cortesia de Estebán Ocón, Max Verstappen e Sérgio Pérez. O primeiro e o último passaram perto de um acidente sério e ultrapassaram os limites de paciência que a equipe Force India dedicou a ambos até então. O representante da Casa de Orange atuou sozinho ao cutucar a paciência de seus empregadores num domingo em que seu companheiro de equipe mais uma vez subiu ao pódio. Christian Horner, líder da equipe, tentou amenizar a situação e cavalheirescamente direcionou a culpa do abandono de Verstappen ao fornecedor de motores da equipe.

A atuação do franco-catalão e do mexicano teve cores de grau finale: há vários atos os dois já vinham ensaiando uma demonstração plena de que que dois corpos não ocupam o mesmo espaço no mesmo instante. Mais experiente, Pérez até agora vinha conseguindo sair-se melhor dessas disputas, mas em Spa o resultado foi invertido: Ocón praticamente zerou o saldo negativo dessa disputa e descontou algumas promissórias com deságio ao comentar que o mexicano “quase me matou duas vezes”.

Terminada a corrida, uma conversa dura no motorhome da equipe colocou os pingos nos is e numa calma manhã da última segunda feira, os dois pilotos trocaram a sessão de academia por outra de “mea culpa” e usaram as redes sociais para se desculpar mutuamente.

A cereja desse bolo veio apimentada, como convém a um bom prato da culinária da Índia, Vijay Mallya, o número 1 da Force India, anunciou que daqui pra frente tudo vai ser diferente. Ao comentar o que aconteceu em Spa Mallya não foi exatamente curto, mas falou bem grosso:

“Estou muito satisfeito com o desempenho da nossa equipe este ano (…) com nossos dois pilotos disputando posições livremente. Só que chegamos a um ponto onde os incidentes entre ambos tornaram-se recorrentes e, no interesse da segurança, não tive outra escolha senão determinar que, de hoje em diante, vamos implementar uma política de ordens de equipe para proteger nossos interesses no Campeonato de Construtores”.

O interessante é que Mallya enfrenta problemas financeiros com o império que construiu na Índia e por isso tem que cuidar bem de seus dois pupilos: Pérez significa bons patrocínios e Ocón é um investimento seguro e pode render bons lucros a curto prazo. Ambos garantem que a Force India seja a quarta melhor equipe do grid, apesar de ter um orçamento nitidamente inferior ao da maioria dos seus adversários.

Se Pérez é latino por excelência e Ocón tem sangue catalão (seus pais mudaram da Catalunha para a França antes do seu nascimento, o que dizer dos arroubos do holandês Max Verstappen. Talvez aqui role uma mistura de DNA com o comportamento típico de pilotos tão habilidosos quanto egocêntricos, algo típico de alguns nomes consagrados e de outros arruinados. O pai de Max, Jos Verstappen, tem um histórico – os maldosos usariam o termo “capivara” -, bastante complicado e que inclui tertúlias e até mesmo agressões ao avô paterno e com a mãe do filho pródigo. O próprio Ocón, que derrotou Max nos tempos que ambos competiam na F-3, já comentou que o arrojo do holandês não é o estilo de pilotagem que aprecia e pratica.

Nas pistas já é sabido que Max se destaca por sua habilidade exacerbada tanto em andar rápido quanto jogar duro na disputa por posição. Esta temporada também revelou que a paciência do rapaz não é proporcional ao seu 1m80 de altura, muito pelo contrário: volta e meia circulam declarações sobre sua insatisfação com o carro que a Red Bull lhe entrega, comentários invariavelmente sugerindo que só seu monoposto não ganha as asas que o energético oferece. Cabe questionar se uma empresa que investe algo próximo de meio bilhão de dólares em sua operação de F-1 estaria propensa a ter prejuízos ao sabotar um dos seus funcionários mais caros e mais midiáticos.

Contra os seis abandonos em 12 etapas experimentados por Max Verstappen vale lembrar que Daniel Ricciardo, seu companheiro de equipe, somou 132 pontos na temporada até agora, virtualmente o dobro dos 67 computados ao holandês. Se ambos usam o mesmo material de trabalho talvez não seja uma questão de sorte ou azar a diferença de pontuação entre os dois. A explicação do australiano é bem-humorada e esclarecedora e pode ser traduzida assim:

“Durante a corrida eu converso muito com meu carro, faço massagens nele, mas nada de preliminares. Como o Max é mais jovem, ele vai direto pros finalmentes”.

Em época de renovação de contratos o futuro dos três pilotos é algo a ser seguido com muita curiosidade. Veterano do trio, Sérgio Pérez é o que está mais próximo de se consagrar como um bom piloto, acima da média talvez, e destinado a liderar, no máximo, equipes do meio do pelotão. Verstappen, por sua vez, terá que amadurecer para consolidar o potencial que demonstrou ao estrear com vitória na sua equipe atual, caso contrário poderá se transformar em um enfant terrible que vence corridas a um preço pouco interessante sob a ótica custo-benefício, quem sabe até um sucessor incompleto de Fernando Alonso. Sobra para Ocón, que chegou de mansinho e está comendo pelas beiradas. No último fim de semana essa beirada foi, literalmente, um muro, mas ele mastigou o seu inimigo público número um, seu companheiro de equipe. Provavelmente será o mais bem-sucedido de todos os três.

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