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Novos donos da F1 querem mudar a gestão do negócio

Escrito por Wagner Gonzalez
Jornalista especializado em automobilismo de competição

Foto: Reb Bull

Bernie completou 86 anos no fim de semana do GP do México de 2016 ao lado da esposa Fabiana


Bernie Ecclestone fora da Fórmula 1 sempre foi a maneira mais fácil de fazer alguém lembrar de 1º de abril, data mundialmente conhecida como o Dia da Mentira. Mencionar essa possibilidade no começo do ano soa até como as tendências de marketing adotadas pelos supermercados brasileiros, que durante o carnaval ensaiam as primeiras ofertas de ovos de Páscoa. Desta vez, porém, é oficial, carimbado e tem firma reconhecida: o grupo Liberty Media, novo proprietário da categoria, não está disposto a perder tempo para impor um novo padrão de trabalho e anunciou ontem que o cargo do veterano inglês agora é ocupado por Chase Carey. Ecclestone, de 86 anos, assume a posição de "presidente emérito", algo bem distante daquela ocupada desde que começou a criar seu império no início dos anos 1970. Ele mesmo ainda não sabe as atribuições de sua nova posição, de acordo com suas palavras à revista alemã Auto Motor und Sport:

"Não sou mais o chefe da empresa, meu lugar agora é ocupado por Chase Carey. Minha nova posição é algo como presidente honorário, embora eu não saiba o que isso significa".

Já houve tentativas de eliminar Bernie da equação de negócios do universo Fórmula 1, tanto no lado administrativo (nas décadas de 1970/80 o então presidente da Federação Internacional do Automóvel, Jean-Marie Balestre era o adversário número 1) quanto financeiro, algo mais recente. Na briga contra a FIA chegou-se a anunciar a criação da WMSF, ou Federação Mundial do Esporte a Motor conforme a sigla em inglês. Mais recentemente Ecclestone teve que pagar multas milionárias para manter-se à frente quando o fundo de investimentos CVC Partners assumiu o controle acionário da categoria. Desta vez, 66 anos após sua estreia como piloto, em Brands Hatch, é para valer.

O estilo do inglês sempre teve como único foco obter lucros cada vez maiores e deixar em segundo plano os aspectos técnico e esportivo que muitos insistem em enxergar como a razão de existência da F1. Se nos anos 1950 havia interesse das fábricas em usar a categoria para promover e desenvolver tecnologias, a partir da década seguinte esse interesse praticamente desapareceu, à exceção de fabricantes de pneus e uma ou outra marca de automóveis. Durante um bom tempo o mundo dos Grandes Prêmios foi quase que exclusivamente uma opção de entretimento que reunia elites, aspirantes a celebridade e alguns pilotos de destaque. Para cada campeão mundial ou vencedor de Grande Prêmio que existiu – pilotos em sua essência -, havia sempre um múltiplo de milionários e diletantes que completavam os grids. Não fosse isso, os construtores não teriam vendido tantos automóveis a equipes particulares e aos mecenas de plantão. A partir de 1980 grandes marcas entraram e saíram da F1 ao sabor dos ventos soprados pela situação econômica vivida por cada uma.

Isso não depõe contra a categoria, pilotos, construtores ou mesmo Ecclestone, que enxergou na falta de liderança dos construtores uma forma de ganhar muito dinheiro e gerar riqueza para todos eles, nem sempre de forma equilibrada, diga-se de passagem. Esses ganhos vieram da venda dos direitos de transmissão por TV e rádio, taxas cobradas de promotores locais, publicidade nas pistas, venda de espaços VIPs e, nos últimos tempos, de governantes ansiosos por reposicionar seus países no mercado internacional de turismo e opções de investimento. De lado ficaram a tradição e a atenção ao público aficionado como aquele que acampava em autódromos; ou seja, esqueceram que uma corrente é tão forte quanto seu elo mais fraco.

Ao investir algo além de US$ 8 bilhões no negócio F1, a Liberty Media não tem dúvidas que recuperar esse investimento exigirá um trabalho ainda mais impressionante. Tanto quanto pela fama de centralizador, Bernie também será lembrado por capacidade incrível de trabalho. Para dar conta do recado, Carey anunciou ontem a contratação de dois pesos pesados em suas especialidades para dividir as tarefas: Ross Brawn será o responsável pela área esportiva e Sean Bratches (ex-ESPN) pelas operações comerciais.

Ideias e projetos para tanto não faltam: cortar o bônus anual que a Ferrari recebe por ser Ferrari – Ecclestone sempre nutriu admiração pela marca e, principalmente, por seu fundador Enzo Ferrari -, transformar cada etapa do Mundial de F1 em um evento semelhante ao Super Bowl americano, a final do campeonato de futebol norte americano – sim, o futebol "deles"-, prestigiar os circuitos mais tradicionais do calendário, que perderam espaço para países como Azerbaijão, Índia e Turquia (os dois últimos já eliminados do calendário), explorar mercados mais interessantes, como Nova Iorque e Los Angeles...

A lista é longa e no meio do caminho há muitas pedras, não apenas uma, entre elas aquela que pode entrar no sapato dos novos administradores: tornar as equipes acionistas do negócio. A ideia da Liberty para manter os times motivados e envolvidos no negócio ainda não convenceu os executivos dos principais construtores a aderir à proposta, nem mesmo oferecendo os papéis por um preço subsidiado. Quem sabe porque essas ações não tenham direito a voto, quem sabe porque essas equipes fabricam carros de corrida e não são companhias de investimentos, quem sabe...? Se não é fácil mudar hábitos e padrões de comportamento em qualquer empresa mesmo quando toda a força de trabalho canta no mesmo tom, imagine num coral onde a globalização começa pelo número de nacionalidades envolvidas desde os camarins onde se fabricam os carros de corrida, passando pelos artistas e chegando ao local onde o picadeiro é montado...

Manor, esperança é a última que morre – Há meses a Manor Grand Prix ocupa a UTI da F1, mas o time inglês ainda mantém bem ativos os sinais vitais: o dinheiro que tem em caixa pode garantir a presença da equipe na primeira sessão de testes de pré-temporada, entre os dias 27 de fevereiro e 2 de março. Isso, porém, só vai acontecer se aparecer alguém disposto a bancar a temporada 2017 do time antes da hora marcada para o último suspiro, dia 31 de janeiro.

Segundo o site da BBC, o empresário Ricardo Galael (proprietário da KFC e várias outras empresas na Indonésia) estaria interessado em investir, até mesmo adquirir a operação F1 da Manor. Sean, o filho de Galael, disputou a GP2 no ano passado pela equipe Campos e seria um dos motivos desse interesse. O nome de Ron Dennis também foi ventilado como possível participante de um consórcio para salvar a equipe. Caso o negócio prospere, o time inglês disputaria as primeiras três provas da temporada com o carro de 2016 e somente no GP da Rússia (Sochi, 30 de abril) estrearia o modelo construído de acordo com o regulamento deste ano, que permite monopostos e pneus de maiores dimensões.

Começa temporada paulista – O Autódromo de Interlagos recebe neste fim de semana sete categorias para disputar a rodada de abertura do Campeonato Paulista de Velocidade no Asfalto, com treinos na sexta-feira e competições no sábado e domingo. As categorias admitidas no programa são Fórmula Inter, F-1600, Fórmula Vee (prova extra-campeonato), Força Livre, Classic Cup, Marcas e Pilotos e Clássicos de Competição.

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