Depois de trazer aos nossos leitores tópicos importantes na área de Psicologia do Esporte, o Portal Kart Motor agora aborda um assunto que diz respeito ao que acontece fora da pista, mas que terá importância fundamental no resultado final de cada piloto em cada corrida.
Piloto com passagem pelo kartismo brasileiro, onde disputou a Copa Brasil de 2017, Lucas Assimos reside na Flórida, nos Estados Unidos, onde é empresário e trabalha com diagnóstico automotivo, eletrônica veicular e programação.
Neste artigo, ele aborda algo extremamente importante: a informação que o piloto passa para sua equipe sobre o comportamento de seu kart em pista, o que será fundamental para que o time encontre o acerto ideal do equipamento.
Confira:
Uma das coisas que ficou comigo do período em que corri de kart foi entender que sentir o problema e saber explicar o problema são duas habilidades diferentes.
Para o piloto, é muito fácil voltar para o box e dizer que o kart está saindo de frente, que a traseira está solta ou simplesmente que “não está bom”. O problema é que isso, sozinho, quase nunca entrega informação suficiente para quem vai tentar acertar o equipamento.
Quanto melhor o piloto consegue organizar o que sentiu, menos o mecânico ou preparador precisa adivinhar.
Eu gosto de pensar que o primeiro passo é reconstruir a volta em ordem.
Em vez de dizer “está saindo de frente”, vale separar: isso começa na entrada da curva, quando você solta o freio? Aparece no meio, com volante constante? Ou só na saída, quando começa a acelerar?
Essas três situações podem parecer parecidas para quem está pilotando, mas contam histórias diferentes para quem está do lado de fora tentando entender o comportamento do kart.
O segundo ponto é comparar, não apenas descrever.
“Está ruim” é subjetivo. “Na curva 4 eu consigo fazer a entrada igual à sessão anterior, mas agora preciso abrir mais a direção no meio da curva” já cria uma referência.
A referência ajuda porque transforma sensação em mudança observável. O acerto deixa de partir de um adjetivo e passa a partir de uma diferença.
Outro hábito importante é descobrir se aquilo realmente se repete.
Uma volta isolada pode ter tráfego, zebra, erro de freada, mudança de linha ou simplesmente uma entrada diferente. Se o piloto muda alguma coisa e sente o kart escapar uma vez, isso não significa automaticamente que o acerto ficou errado.
Quando é seguro fazer isso, repetir a curva com a mesma intenção ajuda muito a separar evento de padrão.
Isso exige uma parte que nem sempre é confortável: o piloto também precisa descrever honestamente o que ele próprio fez.
Se a traseira saiu porque eu soltei o freio mais rápido, entrei mais forte ou comecei a acelerar antes, isso faz parte da informação. Não adianta transformar todo erro de condução em problema de setup.
O kart não sabe o que eu queria fazer. Ele só reage ao comando que realmente recebeu.
Esse tipo de disciplina melhora o acerto, mas também melhora o piloto.
Quando você começa a prestar atenção em entrada, meio, saída, freio, volante e acelerador, a própria percepção da volta muda. Você deixa de pensar apenas em “foi rápido ou foi lento” e passa a perceber por que determinada volta foi diferente.
Na prática, um bom debrief pode ser simples.
Eu gosto da lógica de responder mentalmente a cinco perguntas:
Em qual curva aconteceu?
Em qual fase da curva?
O que o kart fez?
O que eu estava fazendo naquele momento?
Isso aconteceu mais de uma vez?
Só isso já organiza muito melhor a conversa no box.
Também ajuda registrar logo depois da sessão. Não precisa virar relatório. Duas ou três linhas enquanto a memória ainda está fresca podem evitar que meia hora depois tudo vire uma impressão genérica.
Hoje trabalho com diagnóstico automotivo e sistemas eletrônicos, e é curioso como esse mesmo raciocínio reaparece em outro ambiente.
No diagnóstico técnico, dizer que “o kart está ruim” ou que “o módulo está com defeito” também não resolve muita coisa. Primeiro é preciso definir o sintoma, quando ele acontece, em quais condições e se pode ser reproduzido.
Depois você testa a causa.
No kart é parecido. O piloto não precisa assumir o papel do preparador e chegar dizendo qual pressão ou ajuste deve ser alterado. O mais valioso é entregar uma descrição clara do comportamento.
Quando essa informação é boa, quem está trabalhando no kart consegue
tomar uma decisão melhor.
Para mim, esse é um dos aprendizados mais úteis do automobilismo de base: velocidade importa, claro, mas a capacidade de comunicar o que aconteceu na pista também faz parte do desenvolvimento do piloto.
Um piloto que aprende a explicar uma volta não ajuda apenas o mecânico a acertar o kart. Ele começa a entender melhor a própria pilotagem.
E isso continua sendo útil muito depois da bandeirada.
