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12/08/2026 09:10

Ansiedade antes da largada: vilã ou aliada do desempenho?

A psicóloga Alexandra Chivalski aborda um novo e importante assunto em Psicologia Esportiva

Autor: Portal Kart Motor / Erno Drehmer


Foto: Gilmar Rose

A Psicologia Esportiva volta a ser assunto no Portal Kart Motor nesta quarta-feira.

De enorme importância na formação de um piloto e muitas vezes negligenciada ou esquecida, a Psicologia Esportiva é a especialidade de Alexandra Chivalski, psicóloga clínica, esportiva e organizacional, mestre e doutoranda em Psicologia, com mais de 10 anos de atuação.

E desta vez o assunto, na terceira coluna de Alexandra no Portal Kart Motor, é a “Ansiedade Antes da Largada”.

Poucos momentos no esporte são tão intensos quanto os segundos antes da largada.

O coração acelera. As mãos ficam úmidas. A respiração muda. A mente dispara em todas as direções ao mesmo tempo.

E então aparece aquela sensação que todo piloto conhece, mas poucos sabem nomear com precisão: a ansiedade.

O instinto diz para eliminá-la. A ciência diz outra coisa.

1. O que acontece no corpo antes da largada

A ansiedade pré-competitiva não é um defeito mental. É uma resposta fisiológica sofisticada, produzida pelo sistema nervoso autônomo diante de uma situação de alta demanda.

Na prática, ela se manifesta como aumento da frequência cardíaca, estado de alerta elevado e prontidão motora. O organismo literalmente se prepara para agir, liberando recursos que normalmente ficam em standby.

Esse estado é funcional. É o corpo sinalizando que está pronto.

O problema não está na ansiedade em si. Está na forma como o piloto a interpreta.

2. A mesma sensação, efeitos opostos

Pesquisas em psicologia do esporte mostram de forma consistente que o impacto da ansiedade sobre o desempenho depende menos de sua intensidade e mais da interpretação que o atleta faz dela.

Dois pilotos podem sentir exatamente o mesmo nível de ativação fisiológica antes de uma prova. Para um, essa sensação significa 'estou pronto'. Para o outro, significa 'algo vai dar errado'.

O primeiro tende a usar a ansiedade como combustível. O segundo tende a ser consumido por ela.

A diferença não está no que o corpo faz. Está no que a mente diz sobre o que o corpo está fazendo.

'Ansiedade percebida como facilitadora melhora o desempenho. Ansiedade percebida como ameaça o prejudica. A sensação é a mesma, a interpretação é tudo”.

3. Cada piloto tem sua zona ideal

O modelo de Zonas Individuais de Funcionamento Ótimo, desenvolvido pelo pesquisador Yuri Hanin, propõe que cada atleta possui uma faixa específica de ativação emocional dentro da qual performa melhor.

Não existe um nível ideal universal de ansiedade. Existe o nível ideal para aquele piloto, naquela condição, naquele tipo de prova.

Alguns pilotos rendem melhor com alta ativação, ritmo acelerado e adrenalina no limite. Outros precisam de um estado mais calmo e controlado para acessar sua melhor versão.

Conhecer a própria zona ótima é parte do treinamento mental, e deveria ser trabalhado com a mesma seriedade que o setup do kart.

4. O que acontece quando a ansiedade passa do ponto

Quando a ativação ultrapassa a zona ótima do piloto, o efeito se inverte. O alerta vira tensão. A prontidão vira rigidez. E a mente, que deveria estar focada na próxima curva, começa a antecipar erros que ainda não aconteceram.

Nesse estado, o piloto perde a fluidez. As decisões ficam mais lentas. O corpo responde com atraso. E o desempenho cai, não por falta de preparo técnico, mas por excesso de ruído interno.

É o oposto do que a ciência chama de estado de flow, aquela sensação de tudo fluindo no ritmo certo, sem esforço consciente, onde a pilotagem acontece quase por instinto.

5. Ansiedade também se treina

A boa notícia é que a relação do piloto com a ansiedade não é fixa. Ela pode ser desenvolvida, calibrada e, com o tempo, transformada em vantagem competitiva.

Isso envolve aprender a identificar os próprios sinais de ativação, desenvolver rotinas pré-largada que ajudem a regular o estado emocional, e praticar a reinterpretação das sensações físicas como indicadores de prontidão, não de perigo.

Técnicas de respiração, foco atencional, visualização e diálogo interno são ferramentas concretas, acessíveis e com respaldo científico sólido. Nenhuma delas exige talento especial. Todas elas exigem treino

Fechamento

O objetivo não é chegar à largada sem ansiedade. Isso não é possível, e provavelmente não seria desejável.

O objetivo é chegar à largada conhecendo o próprio estado emocional, sabendo o que ele significa e sendo capaz de utilizá-lo a favor da performance.

Pilotos que chegam longe não são os que não sentem ansiedade. São os que aprenderam a transformá-la em velocidade.

A largada começa muito antes da bandeira verde. Começa no momento em que o piloto decide o que fazer com o que está sentindo.

Referências: Hanin, Y. L. (2000). Individual zones of optimal functioning; Craft, L. L. et al. (2003). The relationship between the competitive state anxiety inventory e performance: a meta-analysis; Jones, G. (1995). More than just a game: Research developments and issues in competitive anxiety in sport.

Sobre a autora
Alexandra Araújo Chivalski
(CRP 06/121519) é psicóloga clínica, esportiva e organizacional, mestre e doutoranda em Psicologia, com mais de 10 anos de atuação e abordagem terapêutica em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Graduada em Psicologia pelo Centro Universitário São Camilo, com estudos em Neurociência, Neuropsicologia e Avaliação Psicológica e Comportamental.

Integrou a comissão técnica da Seleção Brasileira Paralímpica pela CBDV nas modalidades de futebol de cegos, judô e goalball, e acompanhou atletas olímpicos em clubes. É Coordenadora de Psicologia do Esporte do Clube Atlético Paulistano, fundadora da Clínica Mentalforte e integra a equipe Jonas Kart, referência no automobilismo brasileiro há mais de 35 anos. No campo organizacional, apoia empresas na implementação da NR1 e na gestão de riscos psicossociais.

Sua convicção central é simples e respaldada pela ciência: não existe alta performance sem saúde mental. E saúde mental se constrói, dentro e fora da pista.

Alexandra Chivalski (Psicóloga Esporte)
Instagram - @agilidade.mental
Site -
www.mentalforte.com.br
LinkedIn: Alexandra Chivalski

Foto: Arquivo

A psicóloga Alexandra Chivalski


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