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18/06/2026 14:29

Erro, pressão e recuperação: o que separa pilotos que evoluem dos que travam

A psicóloga Alexandra Chivalski aborda um novo e importante assunto em Psicologia Esportiva

Autor: Portal Kart Motor / Erno Drehmer


Foto: Gilmar Rose

  • Nesta quinta-feira (18), o Portal Kart Motor dá sequência a um assunto abordado há cerca de um mês atrás: a Psicologia Esportiva, área muito importante na formação de um piloto e muitas vezes negligenciada ou esquecida.

Em sua segunda coluna no Portal Kart Motor, Alexandra Chivalski, psicóloga clínica, esportiva e organizacional, mestre e doutoranda em Psicologia, com mais de 10 anos de atuação, fala sobre Erro, Pressão e Recuperação.

No kartismo, errar custa caro.

Uma rodada, uma freada passada, uma decisão atrasada, e posições se perdem em segundos. Muitas vezes, junto com elas, vai a chance de um bom resultado.

Mas existe algo ainda mais decisivo do que o erro em si: o que acontece na volta seguinte.

É nesse momento que se revela uma das habilidades mais determinantes no automobilismo e uma das menos treinadas na base: a capacidade de recuperação mental.

1. O erro faz parte: mas nem todos aprendem a lidar com ele

No automobilismo, errar não é exceção. É parte do processo.

Ainda assim, muitos pilotos crescem em ambientes onde o erro é tratado como algo a ser evitado a qualquer custo e não como dado natural do aprendizado.

Com o tempo, esse ambiente produz um efeito silencioso e perigoso: o piloto não passa a errar menos. Ele passa a ter mais medo de errar.

E quando o medo entra na equação, tudo muda. O traçado fica mais conservador. A frenagem, mais hesitante. A decisão, mais lenta. O desempenho cai, não por falta de talento, mas por excesso de pressão interna.

'O maior inimigo de um piloto jovem muitas vezes não está na pista. Está na cabeça, construído volta a volta, corrida a corrida'.

2. O que a ciência mostra sobre erro e pressão

Na psicologia do esporte, já está bem estabelecido que a forma como o atleta interpreta o erro influencia diretamente sua performance nas ações seguintes.

Sob alta pressão, o cérebro tende a aumentar o monitoramento do próprio desempenho, a focar excessivamente na falha cometida e a reduzir a espontaneidade das ações. Esse processo é chamado de interferência cognitiva e seus efeitos são concretos e mensuráveis.

Na prática, significa que o piloto deixa de executar de forma automática aquilo que já sabe fazer. E passa a 'pensar demais' em situações que exigem resposta imediata.

No kart, pensar demais pode ser tão prejudicial quanto agir sem pensar.

3. A volta depois do erro

Quem acompanha corridas de kart já viu essa cena: o piloto comete um erro e, nas voltas seguintes, continua perdendo desempenho. Não por falta de capacidade técnica. Mas porque ainda está mentalmente preso ao que aconteceu três curvas atrás.

Isso gera uma cadeia de efeitos que se retroalimenta: queda de confiança, aumento da tensão corporal, decisões mais conservadoras ou imprecisas e dificuldade de retomar o ritmo.

O erro deixa de ser um evento pontual. E passa a contaminar toda a corrida.

'Não é o erro que derruba o piloto. É o tempo que ele leva para sair dele'.

4. O que diferencia pilotos que evoluem

Pilotos que constroem trajetórias consistentes desenvolvem uma habilidade específica e raramente ensinada na base: o ‘reset’ mental.

Isso envolve reconhecer o erro rapidamente, extrair a informação relevante e redirecionar o foco para a próxima ação. Sem prolongar a carga emocional associada à falha.

Em vez de operar com 'errei de novo', o piloto aprende a operar com 'o que ajusto na próxima curva?'

Essa mudança de linguagem interna parece simples. Mas tem impacto direto e imediato na performance.

5. O ambiente que amplifica ou amortece o erro

No contexto do kartismo brasileiro, existe um fator que intensifica tudo isso: o ambiente.

Pais, equipes, expectativa por resultado e investimento financeiro criam um cenário onde o erro ganha um peso desproporcional. E quanto maior o peso emocional atribuído à falha, mais difícil e mais lenta se torna a recuperação.

Por isso, a forma como o ambiente reage após um erro não é detalhe, é determinante.

Ambientes que amplificam o erro tendem a prolongar seu impacto. Ambientes que tratam o erro como parte do processo tendem a acelerar a recuperação e, consequentemente, o desenvolvimento do piloto.

A diferença não está apenas no que acontece na pista. Está no que acontece no box.

6. Recuperação também se treina

Assim como traçado, frenagem e retomada, a recuperação mental é uma habilidade treinável e deveria ser tratada como tal desde a base.

Isso inclui aprender a reconhecer sinais precoces de tensão, desenvolver estratégias de foco atencional, criar rotinas entre voltas e trabalhar a regulação emocional sob pressão real de competição.

No entanto, esse tipo de treinamento ainda é amplamente ausente na formação de pilotos jovens no Brasil. E essa lacuna tem um custo: pilotos tecnicamente preparados que travam nos momentos decisivos.

Fechamento

Em categorias mais altas, onde o nível técnico entre os competidores é próximo, a diferença costuma estar na consistência. E consistência não depende apenas de acertar mais, depende de errar e se recuperar rápido.

Pilotos que chegam longe não são os que evitam o erro a todo custo. São os que não ficam presos a ele.

No kartismo, o erro acontece em segundos. Mas a forma como o piloto lida com ele pode impactar toda a corrida e, ao longo do tempo, toda a trajetória esportiva.

Porque, no fim, não é o erro que define o piloto. É o que ele faz imediatamente depois.

Referências Beilock & Carr (2001), Journal of Experimental Psychology: General; Mesagno & Hill (2013), International Journal of Sport Psychology; Nicholls & Polman (2007), Journal of Sports Sciences.

Sobre a autora
Alexandra Araújo Chivalski 
(CRP 06/121519) é psicóloga clínica, esportiva e organizacional, mestre e doutoranda em Psicologia, com mais de 10 anos de atuação e abordagem terapêutica em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Graduada em Psicologia pelo Centro Universitário São Camilo, com estudos em Neurociência, Neuropsicologia e Avaliação Psicológica e Comportamental.

Integrou a comissão técnica da Seleção Brasileira Paralímpica pela CBDV nas modalidades de futebol de cegos, judô e goalball, e acompanhou atletas olímpicos em clubes. É Coordenadora de Psicologia do Esporte do Clube Atlético Paulistano, fundadora da Clínica Mentalforte e integra a equipe Jonas Kart, referência no automobilismo brasileiro há mais de 35 anos. No campo organizacional, apoia empresas na implementação da NR1 e na gestão de riscos psicossociais.

Sua convicção central é simples e respaldada pela ciência: não existe alta performance sem saúde mental. E saúde mental se constrói, dentro e fora da pista.

Alexandra Chivalski (Psicóloga Esporte)
Instagram - @agilidade.mental
Site - www.mentalforte.com.br
LinkedIn: Alexandra Chivalski

Foto: A psicóloga Alexandra Chivalski

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