Nesta sexta-feira (15), o Portal Kart Motor inaugura um novo espaço, que trata de uma área muito importante na formação de um piloto, a Psicologia Esportiva, muitas vezes negligenciada ou esquecida.
O assunto é dominado por Alexandra Chivalski, psicóloga clínica, esportiva e organizacional, mestre e doutoranda em Psicologia, com mais de 10 anos de atuação, e que hoje nos oferece sua primeira coluna: “Pais, pressão e performance: o papel invisível que molda a mente do piloto”.
Abertura
No kartismo, a corrida não começa na pista. Ela começa muito antes, no ambiente que cerca o piloto. No olhar dos pais após um erro. No silêncio depois de uma ultrapassagem perdida. Na expectativa, muitas vezes não dita, mas sempre sentida.
O que poucos percebem é que, enquanto o piloto treina traçado, frenagem e retomada, o cérebro dele também está sendo treinado, todos os dias. E esse treino emocional pode ser o maior diferencial ou o maior obstáculo na carreira de um piloto.
1. O que a ciência já sabe – o papel dos pais: entre apoio e pressão
Nenhum pai pressiona porque quer prejudicar. Existe investimento, envolvimento e expectativa. Existe, muitas vezes, um sonho compartilhado. E é exatamente por isso que a linha entre apoiar e pressionar é tão sutil e tão difícil de perceber de dentro.
O piloto, no entanto, percebe. Com uma precisão que surpreende, ele capta o que o ambiente ao redor está comunicando, mesmo quando ninguém diz nada. Na psicologia do esporte, esse contexto é chamado de clima motivacional. E os estudos são claros: o ambiente criado pelos pais influencia diretamente como o atleta aprende, compete e lida com a pressão (Kolayiş, Sarı, & Çelik, 2017).
Pesquisas mais recentes têm aprofundado essa compreensão ao desenvolver instrumentos específicos para avaliar esse fenômeno em esportes individuais. Um exemplo é o trabalho de Harwood e colegas, que validaram um modelo que analisa como comportamentos parentais moldam a experiência competitiva do atleta (Harwood et al., 2019). De forma geral, esse ambiente tende a se organizar em dois padrões principais.
No clima focado no processo, o que importa é o esforço, a evolução e o aprendizado. O erro é tratado como parte natural do desenvolvimento, não como fracasso. O piloto se sente seguro para tentar, ajustar e crescer. Esse tipo de ambiente está associado a maior confiança, maior resiliência e, curiosamente, a melhores resultados ao longo do tempo.
No clima focado no resultado, o centro da experiência passa a ser vencer. O desempenho é constantemente comparado ao dos outros. Os erros ganham peso emocional desproporcional. E a sensação de aprovação fica condicionada ao pódio.
De forma silenciosa, o piloto aprende algo perigoso: que seu valor depende do resultado.
Com o tempo, esse padrão aumenta a ansiedade, reduz a motivação e fragiliza a confiança nos momentos em que ela mais importa, justamente sob pressão, na largada, na decisão que separa posições.
E aqui está o ponto mais importante de tudo isso: a diferença entre esses dois ambientes não está em cobrar ou não cobrar. Está no que se coloca no centro da conversa depois de cada treino e cada corrida.
A conclusão é consistente: quando o foco está apenas no resultado, o efeito costuma ser imediato, mais pressão, mais medo de errar e, paradoxalmente, pior desempenho. Não porque o piloto não tem talento, mas porque o cérebro sob pressão crônica simplesmente não opera no seu nível mais alto.
'A percepção da pressão importa mais do que a intenção dos pais. O piloto sente o que o pai sente, mesmo quando ninguém fala nada.'
2. A teoria por trás da performance
Edward Deci e Richard Ryan desenvolveram a Teoria da Autodeterminação, uma das bases mais robustas da psicologia motivacional. Para que um atleta tenha performance sustentável ao longo do tempo, três pilares precisam estar presentes:
Autonomia: O piloto precisa sentir que escolhe competir, não que está cumprindo uma obrigação ou realizando o sonho de outra pessoa.
Competência: Sentir que está evoluindo, superando seus próprios limites. Resultados importam, mas o progresso percebido é o combustível real da motivação.
Vínculo seguro: Apoio emocional genuíno. Saber que a aprovação dos pais não depende do pódio. Esse é o pilar mais negligenciado no kartismo brasileiro.
Quando pais controlam excessivamente, com cobranças, críticas imediatas ou expectativas não ditas, os três pilares enfraquecem ao mesmo tempo. A motivação intrínseca cai. A ansiedade sobe. E o piloto começa a competir com medo, não com fome.
3. O kartismo brasileiro tem um desafio extra
No cenário nacional, o kartismo tem características que amplificam todos esses efeitos. As crianças começam muito cedo, o investimento financeiro das famílias é alto, os pais estão sempre presentes, no box, nos treinos, nas viagens, e qualquer erro tem consequência imediata e visível: perda de posição, tempo perdido, resultado comprometido.
Esse conjunto cria um ambiente emocionalmente intenso e permanente. Sem preparo psicológico específico, o kartismo deixa de ser fonte de desenvolvimento e passa a ser fonte de estresse, para o piloto e para a família.
'O Brasil tem uma base técnica forte. Mas a preparação mental ainda é negligenciada, e ela começa muito antes do capacete.'
4. O erro que mais atrasa carreiras
O erro mais comum no desenvolvimento de pilotos não está no volante. Está na interpretação do erro.
Quando errar vira sinônimo de frustração, bronca ou decepção coletiva, o piloto aprende algo perigoso: errar não é permitido. E no automobilismo, isso é incompatível com a evolução. Todo piloto que chegou longe errou muito. A diferença é que aprendeu a usar o erro como dado técnico, não como ameaça emocional.
A capacidade de regular emoções após uma falha, recuperar a concentração rapidamente, reanalisar a situação e agir com clareza, é um dos diferenciais mais estudados na psicologia do esporte de alto rendimento. E é completamente treinável. O problema: raramente é ensinada na base.
5. O papel dos pais: sem julgamento, mas com responsabilidade
Nenhum pai pressiona porque quer prejudicar. Pressiona porque acredita, porque investe, porque sonha junto. Mas existe uma linha muito sutil entre apoio e pressão, e o piloto sente essa diferença com uma precisão que surpreende.
O ambiente ideal não é o que cobra menos. É o que permite que o piloto erre sem medo, aprenda rápido e volte mais forte.
Algumas práticas concretas que fazem diferença:
● Foco no processo, não no pódio. Pergunte 'o que você aprendeu hoje?' antes de perguntar 'em que posição você terminou?'
● O box não é tribunal. Reserve análises e críticas para momentos calmos, nunca imediatamente após uma batida ou erro.
● Aprovação incondicional. O piloto precisa saber que o carinho dos pais não depende do resultado da corrida.
● Deixe o piloto falar primeiro. Depois de uma prova, ouça a perspectiva dele antes de oferecer qualquer análise. Isso desenvolve autoconsciência técnica.
● Considere suporte especializado. Um psicólogo do esporte não é 'coisa de piloto com problema', é parte do treinamento de quem quer chegar longe.
Fechamento
Se o Brasil quer formar pilotos para a Fórmula 4, a Indy ou a Fórmula 1, o trabalho precisa ir além da pista. A preparação técnica já é forte. Mas a preparação mental ainda é negligenciada, principalmente na base.
Não existe piloto mentalmente forte que não tenha sido formado em um ambiente emocionalmente saudável.
A performance começa no cérebro. O talento está na pista. Mas a base que sustenta os dois está no ambiente construído por quem ama o piloto, dentro e fora do box.
A corrida começa muito antes da largada.
Referências: Deci & Ryan (2000), Psychological Inquiry; Duda & Balaguer (2007), Social Psychology in Sport; Gould et al. (2008), British Journal of Sports Medicine; Harwood et al. (2019), Frontiers in Psychology; Kolayiş et al. (2017); Smith, Smoll & Cumming (2007), Journal of Sport and Exercise Psychology.
Sobre a autora
Alexandra Araújo Chivalski (CRP 06/121519) é psicóloga clínica, esportiva e organizacional, mestre e doutoranda em Psicologia, com mais de 10 anos de atuação e abordagem terapêutica em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Graduada em Psicologia pelo Centro Universitário São Camilo, com estudos em Neurociência, Neuropsicologia e Avaliação Psicológica e Comportamental. Integrou a comissão técnica da Seleção Brasileira Paralímpica pela CBDV nas modalidades de futebol de cegos, judô e goalball, e acompanhou atletas olímpicos em clubes. É Coordenadora de Psicologia do Esporte do Clube Atlético Paulistano, fundadora da Clínica Mentalforte e integra a equipe Jonas Kart, referência no automobilismo brasileiro há mais de 35 anos. No campo organizacional, apoia empresas na implementação da NR1 e na gestão de riscos psicossociais.
Sua convicção central é simples e respaldada pela ciência: não existe alta performance sem saúde mental. E saúde mental se constrói, dentro e fora da pista.
Alexandra Chivalski (Psicóloga Esporte)
Instagram - @agilidade.mental
Site - www.mentalforte.com.br
LinkedIn: Alexandra Chivalski

