A Motori Brasil começa a transformar em execução uma tese que vem construindo desde sua criação, em 2025: para desenvolver o kartismo brasileiro não basta apoiar pilotos isoladamente. É preciso organizar uma cadeia que reúna formação esportiva, alta performance, educação, qualificação profissional e gestão.
O primeiro passo prático acontece agora.
O projeto Desenvolvimento Esportivo – Marcos Borenstein Affonso Ferreira, apresentado pela Motori Brasil e aprovado pela Lei de Incentivo ao Desporto – LIDE de Mogi das Cruzes, entra em execução neste segundo semestre.
Mogi das Cruzes é o município responsável pelo mecanismo de incentivo que aprovou e viabilizou o projeto. A execução esportiva acompanha o calendário de competições do piloto, em diferentes kartódromos.
Ao mesmo tempo, a Motori Brasil concluiu o protocolo de três projetos no SLI – Sistema da Lei de Incentivo ao Esporte, do Ministério do Esporte.
São eles o Base Brasil, o Elite Brasil e o Formação de Paddock.
Os três projetos foram protocolados e enviados à análise de admissibilidade. Portanto, ainda deverão cumprir as diferentes etapas previstas na legislação federal antes de eventual aprovação, captação de recursos e execução.
Apesar de diferentes, os projetos foram desenhados para funcionar como partes de um mesmo sistema.
Três projetos. Um ecossistema
Da formação à alta performance
O Base Brasil, protocolado no SLI sob o nº 2603053, foi estruturado para cinco atletas em desenvolvimento competitivo.
O programa combina treinamento técnico, preparação física e psicológica e participação em calendário nacional de competições.
Há, entretanto, um componente adicional: a dupla carreira.
A permanência e o desempenho escolar integram o conceito do projeto. A proposta prevê acompanhamento acadêmico e procura evitar uma escolha que ainda aparece com frequência na formação esportiva: estudar ou competir.
Na etapa seguinte aparece o Elite Brasil, SLI nº 2603086, também destinado a cinco pilotos, mas com trajetória competitiva já comprovada.
O projeto acrescenta recursos ligados à alta performance, como telemetria, engenharia de dados e suporte multidisciplinar, além de calendário nacional e previsão de participação de dois atletas em três etapas internacionais.
Mesmo em um programa de maior rendimento esportivo, a dupla carreira permanece como parte da metodologia.
A ideia é tratar a formação do piloto não apenas como construção de performance, mas como desenvolvimento de carreira.
E quem forma o paddock?
O terceiro projeto talvez represente a maior ampliação do conceito.
O Formação de Paddock, protocolado sob o nº 2603241, não é direcionado primordialmente a pilotos.
A proposta é formar jovens para profissões ligadas ao automobilismo.
Mecânica, telemetria, operação esportiva e regulamento fazem parte do conteúdo previsto, em uma formação técnica de 160 horas.
O desenho contempla uma base fixa e também um Campus Itinerante, capaz de acompanhar atividades e competições e aproximar jovens do ambiente real do automobilismo.
O projeto prevê prioridade para alunos da rede pública e alcance superior a 100 beneficiários.
A lógica é relativamente simples: o automobilismo precisa formar pilotos, mas também precisa formar quem trabalha com eles.
Um kart não chega à pista sozinho.
Ao redor do piloto existe uma cadeia composta por mecânicos, preparadores, engenheiros, profissionais de dados, gestores, organizadores, fornecedores e especialistas em diferentes áreas.
Criar oportunidades de entrada também por esse caminho amplia a discussão sobre formação no automobilismo.
Nem todo jovem que se aproxima do kart será piloto. Mas ele pode encontrar no paddock uma profissão.
O primeiro teste acontece agora
Antes de tentar ampliar esse modelo, entretanto, a Motori Brasil terá pela frente uma experiência concreta de execução.
O projeto de Marcos Borenstein é a primeira iniciativa incentivada da organização a percorrer integralmente o ciclo de captação, execução e prestação de contas.
A experiência deverá testar não apenas desempenho esportivo.
Pneus, motores, inscrições, combustíveis, treinos, equipe técnica, coaching, deslocamentos e manutenção fazem parte de uma operação de kart de competição.
Quando existem recursos incentivados, toda essa estrutura passa também a exigir orçamento previamente aprovado, documentação fiscal, comprovação das despesas e prestação de contas.
É nessa combinação entre pista e gestão que a Motori Brasil pretende validar seu método.
Marcos Borenstein, de 19 anos, chegou relativamente tarde ao kart de competição, aos 16.
Em 2025, em seu segundo ano na categoria F4 e primeiro nos motores dois-tempos, conquistou o título geral da Copa São Paulo Bradesco na F4, terminou em terceiro na Copa São Paulo Light F4 e em sétimo na Sprinter 2T.
Também foi quinto colocado na Copa Brasil de Novatos 2T, sexto no Campeonato Brasileiro de F4 e décimo no Brasileiro de Novatos 2T.
No segundo semestre de 2026, sua programação inclui competições da Copa São Paulo Light e provas preparatórias para o Campeonato Brasileiro, além do próprio Brasileiro de Kart.
Da experiência familiar para uma proposta institucional
A Motori Brasil nasceu da experiência de Geraldo Affonso Ferreira acompanhando a trajetória do filho no kart.
Ao entrar mais profundamente no ambiente da modalidade, ele identificou uma diferença entre o grau de sofisticação existente dentro da pista e a organização encontrada, muitas vezes, fora dela.
No kart, praticamente tudo é medido.
Tempo de volta, telemetria, temperatura, pressão dos pneus, acerto do equipamento e evolução do piloto fazem parte da rotina.
A questão levantada pela Motori Brasil é porque orçamento, contratos, responsabilidades, indicadores e fluxo de recursos não deveriam seguir lógica semelhante.
Geraldo traz para o automobilismo uma trajetória ligada à governança corporativa, atuação em conselhos fiscais e comitês de auditoria de empresas e organizações.
Foi dessa combinação entre kart e governança que surgiu a proposta institucional da entidade.
Antes do primeiro projeto incentivado, a Motori Brasil iniciou suas atividades com recursos próprios, participação das famílias e parceiros técnicos.
O projeto aprovado pela LIDE de Mogi das Cruzes passa agora a representar uma etapa diferente: colocar procedimentos, controles e responsabilidades à prova em uma operação financiada por incentivo fiscal e submetida à prestação de contas ao poder público.
Governança como parte da competição
Para patrocinadores, a discussão também pode ser relevante.
Durante muitos anos, boa parte do patrocínio ao automobilismo de base esteve vinculada à relação direta entre empresário, piloto, família ou equipe.
A profissionalização tende a exigir outra linguagem.
Marketing continua importante, mas decisões corporativas de patrocínio podem envolver também áreas financeira, jurídica, tributária, compliance, sustentabilidade e governança.
Nesse ambiente, exposição de marca deixa de ser o único elemento da decisão.
Entram em cena orçamento, indicadores, contratos, documentação, prestação de contas e capacidade de demonstrar onde e como os recursos foram empregados.
A Motori Brasil pretende testar essa lógica no kartismo.
O desempenho na pista continuará sendo uma medida fundamental, mas não será a única.
Três projetos, um método
Se os projetos apresentados ao Ministério do Esporte superarem as etapas de análise e posteriormente conseguirem captar os recursos necessários, a Motori Brasil poderá ampliar significativamente o modelo iniciado nesta primeira experiência incentivada.
O Base Brasil cuidaria do desenvolvimento competitivo.
O Elite Brasil avançaria para a alta performance.
O Formação de Paddock criaria uma porta de entrada para profissionais que poderão trabalhar no esporte.
Há ainda um elemento transversal aos três: formação.
Para os pilotos, isso significa combinar esporte e educação.
Para os jovens do paddock, significa transformar contato com o automobilismo em qualificação profissional.
E, para a própria organização, significa aprender a executar projetos esportivos com planejamento, controles e prestação de contas.
A dimensão dessa proposta talvez esteja justamente aí.
Não se trata apenas de descobrir o próximo piloto brasileiro.
Trata-se de construir o ambiente necessário para que pilotos e profissionais possam se desenvolver.
Da formação à excelência esportiva. Da pista à profissão.

